quinta-feira, 9 de abril de 2009

"O Meteorito Bendegó", por Wilton Carvalho

O Meterito Bendegó

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Palestra realizada emm Lisboa, Portugal, em 29/06/2001
Fonte: www.triplov.com/alquimias/wilton.htm

"Senhoras e Senhores,

Vim de longe para lhes falar sobre uma pedra extraterrestre. Uma pedra cheia de encantamento e misticismo. Uma História e uma lenda dos sertões do Brasil.Uma pedra que na verdade é uma grande massa de ferro com 5.360 quilos, descoberta em 1784 no interior do Brasil e que não está aqui em Lisboa graças ao seu descomunal peso.

Uma pedra que os índios brasileiros chamavam Quitá, ou Quilá ou, talvez, Cuitá e que nós batizamos de meteorito Bendegó. Cuitá. Pedaço de ferro caído do céu, na linguagem dos índios , segundo a interpretação do escritor e folclorista brasileiro Afrânio Peixoto.
Diz a ciência que são passados 122 mil anos desde que esse visitante sideral aqui chegou.
Índios não deveriam existir naquela época para ver o pedaço de ferro cair do céu e nem desenhar enigmáticos traços e estrelas em um rochedo, nas proximidades do local onde ele foi achado entre os cactos do árido sertão da Bahia.

Desenho da Pedra Riscada, por Von Martius

A pintura rupestre encantou von Martius e Debret que incluíram em seus relatos de viagens o estranho desenho. Será que o sofisticado método radioativo de datação da queda dessa pedra é de fato infalível? Ou será que o poema do índio aculturado Manoel Joaquim de Sá, escrito no século XIX, reflete uma verdade mais recente?

Pedra Riscada

"Aquela pedra Quilá
Na infância de minha avó (*)
Uma medonha faísca
Fez no espaço uma risca
E caiu no Bendegó
O estampido e o pó
Retumbou e quis sufocar
E indo a esse lugar
Grande concurso de gente,
Achava-se ainda quente
Aquela pedra Quiló.
Com a maior segurança
Deus a pôs neste lugar;
Ninguém a pode abalar,
Nem dar-lhe certa mudança.
E porque tem circunstância,
Com esta certeza vê,
Que nesta terra não há,
Só si for a Virgem pura.
Tem ciência e está segura
Aquela pedra Quiló.
O defunto capitão-mor
Bernardo Carvalho da Cunha
Nesse tempo se dispunha
Trazê-la do Bendegó;
Achou-a firme qual nó,
Como ainda hoje está:
Carro e bois levou de cá
Com toda sua companhia,
Não trouxe como devia,
Aquela pedra Quilá.
Depois que ele morreu,
Ainda veio um viandante
Ver se era diamante,
Porém não a conheceu,
O malho nela bateu.
"Esta pedra não é má
porém jeito nenhum dá."
No mesmo dia voltou,
E intacta ficou
Aquela pedra Quiló
."

Monte Santo (Bahia) 13 de junho 1782.

o índio Manoel Joaquim de Sá oferece ao
seu amigo português Antonio de Souza Freire,
morador de Pau Grande



A data da queda do meteorito Bendegó ainda é um mistério. Novos estudos serão feitos este ano pelo Museu Geológico da Bahia a fim de testar as datações existentes e chegar a uma conclusão mais acurada.
Verdadeiro mesmo é o ano de sua descoberta: 1784. Os relatos dizem que um jovem vaqueiro encontrou aquela massa de ferro quando buscava uma novilha desgarrada. O fato chegou ao conhecimento do Governador Geral D. Rodrigo José de Menezes, provavelmente em maio do mesmo ano.

O ministro Martinho de Melo e Castro tomou conhecimento do fato através de carta de D. Rodrigo datada de 12 de setembro de 1784. A certidão de nascimento do meteorito Bendegó.
O Capitão-mór Bernardo Carvalho da Cunha foi designado pelo Governador para transportar a massa de ferro para Salvador.
Ele fez o que pôde para cumprir as ordens do Governador, mas não conseguiu. Na sua primeira viagem ao local onde jazia a "pedra de ferro" ele fez o reconhecimento do terreno e conseguiu retirar a massa de 5.360 quilos do local onde repousava, dando-se conta do enorme desafio que tinha pela frente.
Numa segunda tentativa ele colocou a massa de ferro sobre um carro de bois reforçado que mandara construir para aquela finalidade.
Prudente, o capitão-mor não tentou atravessar o leito seco do rio Bendegó. As margens do rio eram muito íngremes e não havia como construir uma ponte ou rebaixá-las com os recursos que dispunha naquele momento. Deixou para outra oportunidade empreender a marcha definitiva a caminho da Bahia, distante uma boas 60 léguas ( 360 km).
Um ano depois chegou outra expedição às margens do riacho Bendegó. Bernardo Carvalho da Cunha não pôde ir. Estava adoentado. Mandou o capitão-mor João Correa de Figueiredo Bittencourt fazer o serviço.
Constrangido, o Capitão Carvalho da Cunha comunicou ao Governador em 9 de outubro de 1785 que seu companheiro de patente não fora bem sucedido na empreitada. Nas suas palavras.
"o dito capitão mor tomou a resolução e empreendeu de fazer uma estiva no dito rio para passar a carreta com mais facilidade e se havia de fazê-la de madeira, como devia ser, pois tinha lá carro que de cá mandei para conduzir o material necessário, a fez de folhas, mandando cortar muitas ramadas com toda a sua folhagem, ia arrumando-as dentro do rio até quase emparelhar as ribanceiras, depois mandou arrastar terra de uma e outra parte das ribanceiras para cobrir a folhagem, supondo que a carreta passaria felizmente e sem trabalho algum, porque passaram todos para uma e outra parte, como também alguns cavaleiros e bois mansos, sem se descobrir o menor risco, não advertindo que o peso da dita barra é muito diferente, extraordinário, cujo engano não conheceu senão depois que a carreta chegou no meio da estiva e se enterrou de tal sorte que nunca mais houve remédio para a tirarem daquele lugar, porque cada vez se enterrava mais para [......] a terra que talvez não estava bem pilada e por essa razão se retirou o dito capitão mor com os bois mansos que eu tinha mandado para a dita condução."

Constrangido, também o Governador D. Rodrigo Menezes deu conta do fracasso à corte em carta de 16 de fevereiro de 1787.
E assim a pedra do Bendegó ficou esquecida no árido sertão por mais de 100 anos. É certo que houve outras tentativas de remoção, mas nenhuma.deu certo.
Somente em 1887, quando o Brasil já deixara de ser uma colônia de Portugal e o reinado do Imperador D. Pedro II, neto de D. João VI, estava chegando ao fim, conseguiu-se transportar o meteorito Bendegó da Bahia para o Rio de Janeiro onde se encontra até hoje, em exposição no Museu Nacional.

Foi-se a "pedra" mas ficou a lenda. Foi muito dura a jornada do meteorito sobre um carretão de quatro rodas puxada por 24 bois através de 106 km de caatinga em busca da estrada de ferro recém construída. Sete vezes o meteorito caiu da carreta. A travessia foi interrompida mais quatro vezes para substituição dos eixos do carro. Parecia que a pedra não queria mesmo deixar o Sertão, mas levaram-na à força, contra sua vontade.
Os moradores das margens do rio Bendegó até que estavam acostumados com a falta de chuvas naquela região, mas o ano que se seguiu à retirada do meteorito foi diferente. A seca de 1889 foi simplesmente terrível. A lembrança da resistência da "pedra" despertava temor nos sertanejos, a associação foi natural. A seca era castigo de Deus por terem removido a "pedra" do seu lugar, levando-a para Corte.

Marco de Don Pedro II

Que fazer? Vingança em primeiro lugar. O marco D. Pedro II construído no local onde o meteorito foi achado foi destruído. Suas placas de bronze foram enterradas e nunca mais se ouviu falar delas. A ata lavrada pelos engenheiros da vitoriosa expedição e colocada nas fundações do Marco foi simplesmente estraçalhada por aquele povo analfabeto que queria chuva e nada mais.
Arrefecida a ira inicial os homens trataram de cavar o local onde a pedra foram originalmente encontrada em 1784. Tinham a esperança de encontrar outra igual a que os engenheiros levaram e assim restituir ao sertão seu talismã que faria chover, acabando a seca que estava matando seus bois e jumentos. Não acharam outra pedra, mas desencavaram grande quantidade de fragmentos oxidados de ferro que até hoje podem ser encontrados no local.

LOCAL DA QUEDA

As chuvas vieram, aquela seca acabou e os homens que presenciaram a remoção do meteorito morreram, mas a lenda persiste até os dias atuais.
A vida aqui é difícil assim meu filho, porque levaram embora a pedra do Bendegó, disse-me certa vez um calejado sertanejo quando eu fazia minhas pesquisas de campo para escrever o livrinho "Os Meteoritos e a História do Bendegó" justamente para desmistificar os relatos existentes.

Meteorítica

Os meteoritos são fragmentos de outros corpos celestes que em sua deriva pelo espaço sideral entram em rota de colisão com a Terra, sobrevivem à ablação da atmosfera e chegam até a superfície de nosso planeta.
Assim como a Terra gira em torno do Sol a de 110 mil km por hora, esses fragmentos também viajam com essa velocidade cósmica.
Um fragmento de matéria que atravesse a atmosfera de nosso planeta a essa velocidade produz atrito, que por sua vez gera calor e luz. As estrelas cadentes são micro fragmentos de matéria que se consomem inteiramente nas altas camadas da atmosfera.
Massas maiores produzem "bolas de fogo" ou bólidos e conseguem sobreviver à passagem da atmosfera caindo na superfície.

Os meteoritos podem ser de três tipos:
Rochosos, os mais comuns (crosta)
Férreos (núcleo)
Mistos ou palasitos (manto)

METEORITOS DE FERRO

O meteorito Bendegó tem a seguinte composição química:
92,7% de Ferro
6,52% de Níquel
0,46% de Cobalto
0,22% de Fósforo
0,10% de Carbono
52 ppm de Gálio
233 ppm de Germânio
0,02 ppm de Irídio

Composição do Bendegó em descrição antiga, locada na sua base original.

Mede 2,15m x 1,50m x 0,66m
Peso total: 5.360 quilos
No Brasil foram catalogados até esta data 60 meteoritos.

Wilton Carvalho e o Bendegó
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